2 de agosto de 2015

DUBLAGEM INESQUECÍVEL (27): CIDADE NUA



A série “Cidade Nua” é uma das produções que revolucionaram a história da TV americana ao combinar a narrativa processual com o desenvolvimento psicológico de personagens vivendo situações que discutiam questões sociais. Até então, as séries policiais seguiam a cartilha estabelecida por “Dragnet”, outra produção que definiu o gênero introduzindo uma narrativa semidocumental, que eliminava o envolvimento pessoal ou emocional dos personagens em relação aos casos que investigavam. Quando “Cidade Nua” surgiu, adotou a linguagem semidocumental, mas a utilizou como apoio para narrar histórias com desenvolvimento psicológico.

Ao introduzir esse tipo de narrativa, “Cidade Nua” unificou o formato seriado e aquele explorado pelos teleteatros da época. Na década de 1950, as séries eram consideradas produções de ‘fácil digestão’. Eram programas populares, com roteiros simplificados e didáticos, que exploravam a relação herói x bandido como uma forma de entretenimento. Para conquistar a crítica e o segmento intelectual, a televisão começou a produzir teleteatros, que adaptavam obras da literatura ou do teatro, além de oferecer roteiros originais, que tinham como principal objetivo explorar personagens mais complexos.



Chamado pela crítica da época como drama legítimo, o teleteatro imperou ao longo da década de 1950. Mas seu alto custo, a audiência limitada a um segmento, e os perigos de abordar um conteúdo polêmico fizeram com que as séries dedicadas ao entretenimento se multiplicassem. Ao ser produzida, “Cidade Nua” uniu o drama processual policial, no qual detetives investigam crimes e prendem bandidos, com o ‘drama legítimo’, ao incluir personagens mais complexos. Apenas a série “Alfred Hitchcock Apresenta” tinha explorado essa abordagem, com uma narrativa antológica (sem personagens ou situações fixas).

Tal qual “Alfred Hitchcock Apresenta”, na série “Cidade Nua”, o ‘bandido’ era o personagem principal. A cada semana, a história apresentava a vida de uma pessoa que, por opção ou por acidente, comete um crime. A diferença ficava por conta do fato de que esta produção não era antológica. Para garantir um porto seguro, as histórias mantinham personagens fixos, que representavam a lei e a ordem diante do caos no qual viviam os personagens convidados

A série influenciou o gênero policial, fazendo surgir uma segunda linha narrativa, a qual é utilizada até os dias de hoje. A abordagem proposta por “Cidade Nua” abriu as portas para produções como “Além da Imaginação”, “Os Intocáveis” e “Os Defensores”, para citar apenas as primeiras produções da década de 1960, período no qual as séries dramáticas da televisão passaram a explorar uma narrativa de cunho mais social, questionando os direitos e deveres do cidadão e do estado, com personagens mais complexos. Entre elas,  “Os Defensores/The Defenders”, que fez pelo gênero de tribunal o que “Cidade Nua” tinha feito pelo drama policial.



A produção tem origem no trabalho do fotógrafo Usher Felling, mais conhecido pelo nome artístico de Wegee. De origem austríaca, a família de Felling se mudou para Nova Iorque na década de 1920. Apaixonado por fotografia, ele se dedicou a essa área, enfatizando o lado cruel e humano da vida da cidade. Em 1945, publicou o livro “Cidade Nua/Naked City”. A obra apresentava fotos de Nova Iorque em meio a seu glamour e sua pobreza, representados por close-ups ou cenas do cotidiano, vistas através de distorções óticas, que se tornariam sua marca.

O sucesso do livro inspirou a produção do filme noir “Cidade Nua”, de 1948, com o qual o fotógrafo não chegou a se envolver. A crítica aponta o filme como a primeira produção americana a retratar o neorrealismo europeu explorado por diretores como Roberto Rossellini e Vittorio de Sica.

Apresentando uma trama policial com narrativa semidocumental, o filme não chegou a agradar o público da época, mas chamou a atenção do produtor Herbert B. Leonard, que comprou os direitos da obra para adaptá-la para uma série de TV. O roteiro ficou a cargo de Stirling Silliphant, que seguiu a mesma estrutura da versão cinematográfica, incluindo o fato de ter sido filmada em externas.

Tendo a cidade de Nova Iorque como personagem da trama e o departamento policial como apoio, a série introduziu a cada episódio um elenco de atores convidados, que ficaram responsáveis por comandar as histórias. A compaixão, o egoísmo, a loucura, o amor, o ódio, a vingança e o perdão serviram como base para cada roteiro. O crime cometido era apenas uma consequência. Os motivos que levavam a pessoa a cometer um crime é que eram importantes.



Inspirada em casos reais, a série estreou no dia 30 de setembro de 1958, com episódios de meia-hora de duração. James Franciscus interpretava o detetive Jim Halloran, casado com Janet (Suzanne Storrs). Seu superior era o Tenente Dan (John McIntire) e seu colega, o oficial Frank Arcaro (Harry Bellaver).

Com 39 episódios produzidos para a primeira temporada a série não chegou a conquistar uma grande audiência nem tampouco a crítica. Muitos acusavam a produção de não respeitar o formato das séries, nas quais as histórias giravam em torno do elenco fixo. Ao introduzir histórias em que o convidado especial era o personagem principal, parte da crítica atacou a série por tentar se fazer passar por teleteatro e, o que era pior, exaltando os ‘desajustados’.

Nos bastidores, a produção passava por problemas. Por ser totalmente filmada em externas, equipe e atores estavam sujeitos ao clima, ao aval da prefeitura de Nova Iorque, ao trânsito (que muitas vezes não poderia ser fechado) e à população em geral. Muitas cenas eram gravadas de madrugada ou ao amanhecer, para evitar maiores problemas.

Financeiramente independente e acostumado às comodidades das filmagens dentro de um estúdio, John McIntire não aguentou, decidindo deixar o elenco antes do fim de seu contrato. O ator avisou a produção, oferecendo-se para gravar um episódio no qual seu personagem seria retirado da trama.

Após negociações, o ator gravou a cena em que o Tenente Dan leva um tiro e é morto em uma explosão quando seu carro bate em um caminhão de gasolina. Com isso, “Cidade Nua” entraria para a história como a primeira série na qual uma explosão é produzida e na qual um personagem fixo é assassinado. Para substituí-lo, entrou o ator Horace McMahon, que interpretou o Tenente Mike Parker.

Nesse meio tempo, os produtores tentavam transformar a série em um drama de 50 minutos. Procurando convencer os executivos da Columbia a entenderem que “Cidade Nua” era uma produção que desenvolvia personagens e não uma série de ação e aventura, os produtores conseguiram apenas que o canal ABC a cancelasse . A baixa audiência, as dificuldades e custos de filmagens externas, a saída de McIntire (na época um nome de peso), e os ataques de críticos de importantes veículos fizeram com que a produção se tornasse um produto indesejável para o canal.



Mas o patrocinador era fã de “Cidade Nua”. Na época, a venda de espaços publicitários era feita por blocos de horários. O principal patrocinador do horário era a empresa de tabaco Brown & Williamson, subsidiária da British American Tobacco, uma das maiores companhias de cigarro, responsável pela marca Luke Strike. Unindo-se aos produtores, a empresa convenceu a ABC a voltar a produzi-la, dando-lhe os 50 minutos por episódio que os roteiristas pediam.

“Cidade Nua” voltou a ser produzida em 1959, mas a segunda temporada somente estreou em 1960. Por isso, perdeu mais um dos atores principais: James Franciscus. Com o cancelamento da série, James foi contratado para estrelar o piloto de uma nova sitcom chamada “Band of Gold”, produzida por Norman Lear. Infelizmente, para o ator, a CBS envagetou o projeto após a produção do piloto, que foi exibido em 1961 dentro do teleteatro “G.E. Theatre”.

No lugar de James Franciscus entrou Paul Burke, interpretando um novo personagem: o detetive Adam Flint, que namorava uma aspirante a atriz, Libby (Nancy Malone). Para agradar os críticos, a produção decidiu dar mais ênfase aos personagens fixos, incluindo situações cômicas, dramáticas e românticas, além de fazê-los interagir mais com os atores convidados. Mesmo assim, eles continuavam a ocupar uma posição de coadjuvantes das histórias.

Por curiosidade, quando a série estreou no Brasil, o formato de meia hora de duração recebeu o título de “Passos da Lei”. Mais tarde, quando os episódios de uma hora de duração chegaram, o título em português passou a ser o mesmo do original, “Cidade Nua”.


Quando o novo formato estreou na TV americana, conseguiu conquistar o público e a crítica. Em 1963, a série registrava cerca de 34% da audiência de seu horário. Mesmo assim, “Cidade Nua” foi cancelada após quatro temporadas e 138 episódios produzidos no total. A notícia foi dada aos atores dois dias após a divulgação dos indicados ao prêmio Emmy, no qual a série conquistara nove nomeações.

Até hoje ninguém sabe os motivos que levaram a série a ser cancelada. Em entrevista ao fanzine The TV Collector, publicada em 1986, Paul Burke disse que o cancelamento teria ocorrido como resultado da disputa entre dois executivos da Columbia, que lutavam pelo comando.
“Cidade Nua” é uma das mais influentes séries policiais da história da TV americana. Além de sua contribuição para o formato seriado e para o gênero policial, a série também promoveu o surgimento de dezenas de atores novatos que, na época, lutavam ‘por um lugar ao sol’.

Tal como “Lei & Ordem” faria na década de 1990, “Cidade Nua” recebeu a contribuição da classe artística teatral de Nova Iorque. Passaram por ela nomes como Robert Redford, Martin Sheen, Dustin Hoffman, John Voight, Carroll O’Connor, Robert Duvall, Peter Falk, Suzanne Pleshette, George Segal, William Shatner, Christopher Walken, Diane Ladd, Dennis Hopper, Peter Fonda, Alan Alda, Jack Warden, George C. Scott, James Coburn, Gene Hackman, Shirley Knigh e outros, todos em início de carreira.


Apesar de seu valor para a história da televisão, a série ainda não recebeu da Columbia Pictures/Sony o tratamento adequado. Raramente é reprisada na TV, seja nos EUA ou internacionalmente, e nunca foi lançada devidamente em DVD. Entre 2005 e 2006, a Imagine Entertainment chegou a disponibilizar no mercado americano alguns episódios selecionados, distribuídos em três volumes com um total de nove discos. Mas não passou disso.

Tal qual o filme que a precedeu, a série utilizou a narração em seus episódios, a qual se transformou em um personagem à parte. No início de cada história, cabia ao narrador apresentar ao público o personagem que estrelaria o episódio da semana. Relatando seu histórico e sua personalidade, o narrador estabelecia a atmosfera de cada história. Ao final do episódio, a voz do narrador anunciava: “existem oito milhões de histórias na cidade nua…esta foi apenas uma delas”.

(Texto de autoria de Fernanda  Furquim)




 **A SÉRIE NO BRASIL**

A série foi exibida originalmente nos Estados Unidos, pela rede ABC, entre 30 de setembro de 1958 a 29 de maio de 1963, totalizando 138 episódios em preto e branco.

 No Brasil, foi lançada pela TV Record, Canal 7 de SP, em 04 de Março de 1963, uma segunda-feira, as 21h30, já mostrando os episódios estrelados por Paul Burke.
 Depois de reprisada no final da década de 60 pela TV Excelsior Canal 9 de SP, "Cidade Nua" foi relançada em 1989 pela TV Gazeta Canal 11 de São Paulo, numa faixa retrô que também apresentava "Perdidos no Espaço", "Judd", "Rota 66" e "Além da Imaginação".

Sua última exibição ocorreu em 1996, quando o canal a cabo Sony chegou ao Brasil. A série era exibida aos sábados às 15h, entretanto muitos episódios foram exibidos em inglês e sem nenhuma legenda.



**A DUBLAGEM DE CIDADE NUA**

*HORACE MAcHON (Tenente Mike): Waldyr Guedes.
*PAUL BURK (Detetive Adam Flint): Wilson Ribeiro.
*HARRY BELLAVER (Detetive Arkaro): Amaury Costa (1ª voz) e José Miziara (2ª voz).
*NANCY MALONE (Libby): Rita Cleós.
*Narração: Magno Marino (1ª voz) e Francisco Borges (2ª voz).


3ª TEMPORADA


É a partir desta temporada que os episódios possuem 50 minutos de duração e a série ganha muito mais tempo pára desenvolver os roteiros extremamente bem escritos.


A dublagem chegou à AIC em dezembro de 1962, sendo que a TV Record a estreou em março de 1963.

Esta temporada possui 33 episódios brilhantes em termos de interpretação dos atores convidados, muitos vindos do Cinema, e o desempenho de Paul Burke foi bem eficiente.
Esta é a única temporada que foi dublada completamente pela AIC.

A grande característica da dublagem é ainda a forte influência do radioteatro, porém ao assistirmos atualmente notamos a magnífica qualidade impressa pelos dubladores que participaram.


O diretor de dublagem foi Wolner Camargo, o qual também participou de diversos episódios. Naquela época, o elenco da AIC ainda não era tão grande, sendo assim há diversos dubladores oriundos do Rádio e do início da Televisão ao vivo.


O narrador ficou a cargo de Magno Marino, o qual deu toda uma característica especial ao relatar os fatos iniciais e sempre terminando com a célebre frase "há oito milhões de histórias na cidade nua... esta foi apenas uma delas".




Observa-se que o estúdio ainda não imprimia a inesquecível marca registrada: "Versão Brasileira AIC São Paulo".
Houve o cuidado de que Magno Marino nunca fosse incluído para dublar nenhum personagem.

Além dos desempenhos inigualáveis de Wilson Ribeiro, Waldyr Guedes, Amaury Costa e Rita Cleós para os personagens fixos, há uma verdadeira galeria de excelentes profissionais que estavam iniciando também na dublagem, alguns até sempre tendo uma participação maior em desenhos, dublaram nesta 3ª temporada.


Sendo assim, há a presença de Roberto Barreiros, Gastão Renné, Marthus Mathias, Lutero Luiz, Arakén Saldanha, Waldir de Oliveira, Nícia Soares, Márcia Real, Henrique Martins, Isaura Gomes, Neuza Maria, Rogério Márcico, Marcelo Gastaldi, Raymundo Duprat, Garcia Neto, Helena Samara, Osmiro Campos e até Laura Cardoso.


Um elenco extraordinário, que demonstra a qualidade da interpretação com a voz, mesmo ainda com a forte influência do radioteatro, para os fãs da excelente dublagem é uma verdadeira aula desses grandes pioneiros.


Entretanto, a TV Record só adquiriu esta temporada, a qual viria a ser reprisada alguns anos mais tarde.



4ª TEMPORADA


No final da década de 1960, a TV Excelsior exibe na íntegra a 3ª temporada e, ao mesmo tempo, adquire os direitos de exibição da 4ª e última temporada.


Infelizmente, a TV Excelsior já se encontrava numa crise financeira que culminaria com o encerramento das suas atividades e, sendo assim, apenas os 20 primeiros episódios foram dublados.


A data desta dublagem é aproximadamente de 1968 ou 1969, não conseguimos encontrar com certeza absoluta.

Entre a dublagem da 3ª temporada e a da 4ª se passaram cerca de 6 anos e a maioria dos dubladores havia procurado outros caminhos, principalmente, movidos pelo início do sucesso das telenovelas.

A narração é realizada por Francisco Borges e José Miziara substitui Amaury Costa para a dublagem do sargento Arkaro.

Outros dubladores excelentes participam como: João Paulo Ramalho, Áurea Maria, Ézio Ramos, Xandó Batista, Olney Cazarré e ainda continuam as excelentes Isaura Gomes e Helena Samara e outros do mesmo período.
Nesta temporada, Francisco Borges menciona a frase: "Versão Brasileira AIC São Paulo".



O fato de maior relevância é a diferença que a dublagem da AIC apresenta nas duas temporadas. A 4ª temporada já está totalmente sem a influência do radioteatro, os dubladores ainda fazem grandes interpretações com a voz (qualidade sempre da AIC), mas sem a carga que o radioteatro imprimia.

Seja como for, ambas dublagens são fascinantes e, infelizmente, quando a série retornou pela TV Gazeta de São Paulo, em 1989, muitos episódios já estavam sem dublagem e não puderam ser exibidos.

Em 1996, a Sony exibiu boa parte dessas temporadas e encontramos episódios que foram exibidos em inglês, uma vez que o áudio em português já estava prejudicado.

Infelizmente, como diz o texto de Fernanda Furquim, ainda não se deu o valor que a série Cidade Nua merece e, para nós brasileiros, o tema é muito mais complexo por dois motivos:

o primeiro é o fato da série ter sido produzida em preto e branco e segundo é o caso da dublagem não ter sido conservada adequadamente.
Consta que ainda a TV Guaíba de Porto Alegre conseguiu exibir mais episódios no início da década de 1990.



Mas, mesmo assim, a série poderia ser exibida por um canal a cabo, o que demonstra a falta de criatividade dos programadores dessas emissoras, que privam o público de conhecer ou de rever uma excelente produção da tv americana do início da década de 1960.

Registramos aqui, a qualidade de todos os profissionais que atuaram na dublagem de Cidade Nua, um desempenho extraordinário, o qual deveria ser útil para aqueles que queiram iniciar na carreira como dublador.

"Aprender a ouvir uma verdadeira obra de arte."



**VAMOS REVER 2 EPISÓDIOS DE CIDADE NUA**

**EPISÓDIO: "NUNCA O PERDOAREI"

OBS 1> Este é o 1º episódio da 3ª temporada e traz como atores convidados Lee J. Cobb e Geraldine Fitzgerald.

OBS 2> Arakén Saldanha dubla magistralmente o ator Lee J. Cobb e há a presença de Isaura Gomes e Osmiro Campos.

**PARTE 1**
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**PARTE 2**
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**EPISÓDIO: "ARMADILHA HUMANA"

OBS 1> O ator Jack Lord é dublado por Henrique Martins.

OBS 2> Há a presença das dubladoras Márcia Real e Neuza Maria.


**PARTE 1**
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**PARTE 2**
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**Marco Antônio dos Santos**

4 de maio de 2015

RELÍQUIAS DA DUBLAGEM (06): "A MALVADA"




A elite do teatro encontra-se reunida, em Nova York, para a cerimônia anual de entrega dos troféus Sarah Siddon aos que se destacaram em suas áreas.  Entre os presentes, encontram-se Addison DeWitt, um conceituado crítico teatral, Karen Richards, esposa do dramaturgo Lloyd Richards, Max Fabian, um produtor de peças teatrais, Margo Channing, uma famosa atriz de meia-idade, e Eve Harrington, a mais jovem atriz que será agraciada com o referido troféu.


Em 'flashbacks', Karen relembra que Eve se aproximou do teatro como uma fã da mega-estrela da Broadway, Margo, não faltando a uma de suas apresentações e esperando sempre para vê-la chegar e sair do teatro.  Na época, Margo estrelava a peça 'Aged in Wood', produzida por Fabian e dirigida por seu namorado, Bill Sampson.



Certa noite, após uma das apresentações, Karen pede à Margo que conheça uma das suas mais ardorosas fãs.  E, assim, Eve conquista a simpatia de Margo, que a leva para sua casa como sua secretária particular.  O que Margo não esperava era que sua protegida, aparentemente inocente, viesse a se mostrar uma pessoa extremamente astuciosa e ambiciosa. 






Birdie, sua camareira de língua ferina, sente o cheiro de problemas no ar e alerta Margo de que Eve não é a pessoa que parece ser.  A simpatia de Margo por Eve vai se transformando, aos poucos, em hostilidade.  Finalmente, ela resolve pedir a Fabian que consiga um trabalho para Eve em seu escritório.

Eve, em seus planos ambiciosos para chegar ao estrelato, resolve usar a influência de Karen.  Esta, simpatizando com a moça, decide criar as condições para colocá-la como substituta de Margo.  Assim, após um final de semana fora de Nova York, Margo perde o trem de volta e não consegue chegar a tempo ao teatro.  Tal fato permite à Eve subir ao palco no lugar de Margo pela primeira vez.  Na manhã seguinte, as manchetes dos jornais destacam a magnífica estréia de Eve, como substituta de Margo.  Em entrevista, Eve critica atrizes de meia-idade que atuam em papéis tipicamente de pessoas mais jovens.  Tais fatos irritam profundamente Margo.  

Em seu apartamento com Karen, Lloyd culpa Addison de estar por trás das ambições de Eve.  Mais tarde, os dois casais (Margo e Bill, e Karen e Lloyd) se encontram para uma celebração especial: o casamento, no dia seguinte, de Bill e Margo.  Margo retira-se das intrigas do palco em favor do seu casamento.

*Bette Davis e Gary Merrill*

Continuando com seus planos maquiavélicos, Eve parte para roubar o marido de Karen, Lloyd, de modo a ter o dramaturgo de maior sucesso da América escrevendo peças especialmente para ela.  

Addison DeWitt percebe claramente as manipulações de Eve.  Assim, desejoso de tê-la como sua amante, o elegante crítico investiga seu passado e decide enfrentá-la.  Num dramático confronto, ele põe abaixo tudo o que ela havia dito ao entrar para o seleto mundo teatral de Nova York, ao afirmar:  "Em primeiro lugar, seu nome não é Eve Harrington e sim, Gertrude Slescynski; seus pais são pobres e não têm notícias suas há três anos;  você recebeu US$ 500 para deixar a cidade, onde trabalhava numa cervejaria, após um rumoroso envolvimento com o seu chefe".  Arrasada, ela concorda com suas pretensões, verificando que se tornou vítima de suas próprias armadilhas.

O filme volta à cerimônia de premiação, onde Eve acaba de receber o troféu Sarah Siddon de melhor atriz.  Depois da cerimônia, Margo a cumprimenta.

Ao regressar para seu apartamento, cansada, Eve encontra, esperando-a, uma bela adolescente chamada Phoebe, presidente de um fã-clube do Brooklyn.  Sua primeira reação é a de chamar a polícia, mas lisonjeada, ela vê, na jovem, a Eve que vivia a seguir Margo...

  
*Marylin Monroe e George Sanders*

"A Malvada" é, sem dúvida, um dos grandes filmes de todos os tempos.  A história é muito boa, o roteiro e a direção de Mankiewicz são excelentes e o elenco é de primeiríssima qualidade.  A música de Alfred Newman também merece destaque.



A interpretação de Bette Davis, como Margo Channing, é considerada pela maioria dos críticos de cinema como uma das melhores de sua carreira.  Anne Baxter, como a obsessiva fã de Margo, está soberba.  A maioria dos outros atores e atrizes também está muito bem, com destaques para George Sanders, Celeste Holm e Thelma Ritter.  Marilyn Monroe, em seu sexto filme, tem um pequeno papel como a Srta. Caswell, uma aspirante à atriz.



Indicado a 14 Oscars, "A Malvada" foi contemplado com seis, entre os quais os de melhor filme, melhor roteiro e melhor direção.




**Anne Baxter**



**A DUBLAGEM DO FILME**


O filme "A Malvada" foi dublado pelo extinto estúdio Dublasom Guanabara e conta com um elenco de vozes brilhantes.
A data desta dublagem é um tanto incerta, mas provavelmente seria em torno de 1967 a 1971.

Naquele período, na dublagem carioca, os grandes clássicos iam para o estúdio CineCastro ou para a Dublasom Guanabara. Evidentemente, não era uma regra estabelecida, mas são poucos os filmes dublados pela TV Cinesom. O estúdio Herbert Richers ainda dublava mais séries e desenhos e pouquíssimos filmes.

A dublagem de Margo Channing foi simplesmente magistral, realizada pela atriz Ida Gomes, a qual se tornou uma referência para outros filmes com Bette Davis.
Ida Gomes foi atriz de Teatro, Cinema e atuou em inúmeras novelas da Rede Globo.

**Ida Gomes (1923-2009)**

A dublagem de Ida Gomes é tão perfeita para esta personagem, que os fãs das antigas dublagens, praticamente, acham "muito estranho" assistir ao filme legendado.
Realmente, uma interpretação à altura da grande atriz Bette Davis, onde não perdemos absolutamente nada da sua atuação, muito pelo contrário, a dublagem é empolgante e envolvente. 

A Malvada, além de possuir esta extraordinária dublagem de Ida Gomes, ainda conta com dubladores excelentes como: Joaquim Luís Motta, Paulo Gonçalves, Nelly Amaral, Ângela Bonatti, Waldir Fiori, Antônio Patiño, Selma Lopes, entre outros. 

No conjunto, a dublagem de A Malvada é perfeita.
Ângela Bonatti, dublando Anne Baxter, nos brinda com um trabalho primoroso, como uma sutil vilã e carregada de "doçura" na interpretação com a voz.


Este trabalho demonstra, claramente, como a nossa dublagem chegou, rapidamente, a ser reconhecida como uma das melhores do mundo.
Infelizmente, são obras de arte que ficaram esquecidas pelas distribuidoras, emissoras abertas e até, na grande maioria das vezes, pela tv a cabo, algo típico no Brasil, além do fato de ser sido produzido em preto e branco.

Todos esses fatores "negativos" privam a muitos brasileiros de poder assistir a mais esta "relíquia da nossa dublagem".


**ELENCO PRINCIPAL / PERSONAGENS / DUBLADORES**


*Bette Davis (Margo Channing): Ida Gomes.
*Anne Baxter (Eve): Ângela Bonatti.
*George Sanders (Addison Dewitt): Paulo Gonçalves.
*Celeste Holm (Karen Richards): Nelly Amaral.
*Gary Merrill (Bill Simpson): Joaquim Luís Motta.
*Hugh Marlowe (Lloyd Richards): Waldir Fiori.
*Gregory Ratoff (Max Fabian): Antônio Patiño.
*Marylin Monroe (srta. Casswell): Juraciara Diácovo.
*Thelma Ritter (Birdie): Selma Lopes.



**VAMOS REVER 3 MOMENTOS DA DUBLAGEM**


**VÍDEO 1: A interpretação fantástica de Ida Gomes.

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**VÍDEO 2: Elenco de vozes perfeito.

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**VÍDEO 3: Ângela Bonatti e Paulo Gonçalves.
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**Fonte de Pesquisa: "Site 70 anos de Cinema"

e Acervo Pessoal.


**Marco Antônio dos Santos**

26 de abril de 2015

A DUBLAGEM DO FILME "O COLECIONADOR"




O filme, baseado no best-seller de John Fowles, conta a história de Freddy (Terence Stamp), o colecionador do título. Rapaz solitário que coleciona borboletas, ele tem uma paixão obsessiva por Miranda (Samantha Eggar). E na tentativa de demonstrar esse amor, simplesmente sequestra a moça e a aprisiona no porão de sua casa.
Obviamente, Freddy não tem sucesso, pois só o sequestro em si será o primeiro de uma série de obstáculos à reciprocidade desejada por ele.



Imaturidade cultivada numa vida sem afetividade (mesmo no trabalho, sua mesa encontrava-se isolada das dos demais “colegas”), cuja única relação desenvolvida foi a de posse (sua coleção de borboletas), e é neste mesmo âmbito que se dá sua relação com Miranda. A concepção mais próxima de reprodução, para Freddy, é a incubação que realiza nas larvas que recebe de um fornecedor: enclausurada no porão da casa de Freddy, a moça vive como mais uma de suas borboletas, desenvolvendo seus desenhos, colorindo o seu “casulo”, sob o afastado olhar de seu “dono”, que apenas a veste e alimenta.

O contato físico entre eles ocorre exclusivamente em função das tentativas de fuga de Miranda, quando Freddy é obrigado a subjugá-la pela força, agarrá-la, abraçá-la, amarrá-la, ou, em dado momento, quando por iniciativa própria, a moça tenta acariciá-lo. Para Freddy são momentos de verdadeira provação, uma afronta à “pureza” que almeja à relação.

“O colecionador” foi o último grande trabalho de Wyler, que ganhou prêmios no Festival de Cannes, inclusive para os dois intérpretes estreantes, e indicado para os Oscars de diretor e atriz (Samantha Eggar). A crítica mundial viu o filme como um desafio do veterano Wyler em seguir a linha do cinema novo mundial. O diretor conseguiu reproduzir o cenário claustrofóbico do original de John Fowles com uma criativa fotografia de dois mestres da especialidade. 




A sua estrutura é hipnótica, um genuíno “page turner”, sem gordura extra.
 A adaptação do diretor William Wyler, pode-se considerar sua última obraprima, emula perfeitamente o senso de perigo iminente nas páginas, com uma interpretação primorosa, rica em nuances de Terence Stamp, em seu primeiro grande papel no Cinema. É impressionante a forma como ele deixa transparecer sutilmente sua fragilidade em sua atitude corporal, constantemente pendendo sua cabeça ao admirar sua presa, exatamente como uma criança que analisa o mundo pela primeira vez.

 Já a atuação de Samantha Eggar, premiada e elogiada pela crítica da época, consegue personificar a força interior da personagem literária. A inteligência emocional da personagem, como exposta na parte do livro em que acompanhamos seu diário, superava em muito a de seu gentil algoz. Esses detalhes não enfraquecem o excelente resultado, um suspense que ainda hoje é tremendamente eficiente, mas que infelizmente é pouco lembrado.



É excelente a forma como a câmera, na cena em que Miranda encara pela primeira vez seu captor, insinua que ele esteja empunhando algum tipo de arma intimidadora, mas que descobrimos ser apenas uma bandeja com a refeição. A metáfora é clara, um amargo estudo sobre diferenças entre classes sociais e suas respectivas “máscaras”, travestido de conto de horror.

Ele sabe que sua borboleta cativa nunca iria sequer olhar para ele em um dia normal, um simples bancário, que era alvo do deboche dos colegas até o dia em que recebeu a visita de uma familiar, avisando que ele havia ganhado o prêmio da loteria. Ele decide aprisionar a jovem estudante, não numa tentativa de impor sua personalidade sobre a dela, mas sim com a ideologia de um legítimo colecionador, procurando amalgamar-se ao objeto de estudo, entendê-lo em suas particularidades.



 Ao querer que ela passe um tempo com ele e acabe gostando de sua companhia, o protagonista busca desesperadamente entender o que o torna tão diferente dela, quais as razões que o fazem ser ignorado enquanto pobre cidadão, mas adulado quando ascende socialmente num golpe de sorte. Analisando profundamente, Miranda é tão doente quanto Frederick, ambos são vítimas de um sistema que segrega, estipulando o que é valoroso e o que pode ser desprezado, utilizando critérios abstratos e questionáveis.


 E o colecionador não se satisfaz com apenas um espécime analisado, continuando sua busca pela perfeição, aperfeiçoando seu plano para seu próximo alvo...



**A DUBLAGEM DA AIC**



Dublado em meados de 1970, O Colecionador reúne, mais uma vez, a dupla Sandra Campos e Dráusio de Oliveira.

Ambos também estiveram juntos, com enorme qualidade, nos filmes: "Cleópatra", "De repente, no último verão" e "Ana dos Mil Dias".

Entretanto, em O Colecionador há uma circunstância que diferencia a dublagem realizada por ambos nas obras citadas: o filme concentra-se em dois personagens e, consequentemente, temos somente a dublagem dos dois dubladores, algo extremamente empolgante devido à forma da interpretação da obra e dos atores.


Sandra Campos talvez tenha tido a melhor dublagem de sua carreira ao ser Cleópatra (Elizabeth Taylor) e Dráusio de Oliveira ao dublar o personagem Freddy (Terence Stamp).


Um personagem que beira a esquizofrenia e até a psicopatia, mostrando diversos desequilíbrios ao transcorrer da trama, com sua voz sempre pausada, mas profundamente aterrorizante leva o telespectador a uma perfeita integração entre ator/dublador, fazendo com que nem possamos imaginar a voz de Terence Stamp.

Dráusio de Oliveira domina o personagem integralmente em todas as suas nuances. 
Simplesmente extraordinário !



Os diálogos são fortemente estruturados entre os dois personagens e a atriz Samantha Eggar, com sua personagem Miranda, acaba sempre se enfraquecendo diante de seu algoz.
Este fato nos mostra uma dublagem de Sandra Campos, que sugere que é apenas mais uma presa nas mãos de Freddy, que nos faz esquecer totalmente a dominadora e arrogante Cleópatra.
A dublagem de Miranda se dá num outro universo, mas sabiamente captado por Sandra Campos.

Um filme com apenas dois dubladores, quase uma peça de teatro filmada, com duas estrelas da AIC que merecem nossos aplausos.


O Colecionador já foi lançado em DVD, no mercado brasileiro, através da Vídeo Arte, mas, infelizmente, apenas legendado.

Em contato com a empresa, fomos informados de que desconheciam a existência da dublagem brasileira. A própria Sony Pictures, detentora dos direitos do filme, alegou que a dublagem brasileira pertence à uma outra distribuidora, mas não "soube" nos dizer a qual pertencia.



Seja por que motivo for, mais uma vez, o público brasileiro é privado de ter uma obra de arte deixada pela AIC.
Segundo consta, O Colecionador teve a sua última exibição dublada, no início da década de 1990, na TV Record.


**TRAILER DO FILME EM INGLÊS**


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**TRECHO INICIAL DO FILME COM A DUBLAGEM**


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**Fonte de Pesquisa: site "Adoro Cinema"


**Marco Antônio dos Santos**